YEPSEN(s)
by Isabel Nogueira, January 2025
Yepsen é o título de uma fotografia a preto e branco de Pedro Tudela (n. 1962) representando o interior côncavo de duas mãos juntas, e que confere também o título a esta exposição. A primeira sensação é a de uma cuidada e bem conseguida ocupação do espaço, quebrado obliquamente por uma peça possante, mas, simultaneamente leve e desmaterializada (Tam-po-clock, 2024), de Pedro Tudela, que pode funcionar como ponto de união das peças dos dois artistas (Sérgio Fernandes, n. 1985), ao permitir que o olhar abarque o espaço através da transparência das campânulas gigantes de vidro soprado. É das melhores obras e congrega outro elemento importante neste enquadramento: o som. Tudela é também um artista sonoro, tendo produzido ao longo do seu percurso objectos que operam uma conexão entre a escultura e a sonoridade. Mas outra referência nos evoca esta peça. Trata-se da peça histórica La mariée mise à nu par ses célibataires, même, de Marcel Duchamp na qual trabalhou ao longo de mais de uma década, e que também comporta as transparências, a flutuação sensual de elementos, ou a codificação de possibilidades operatórias. Em suma, este “grande vidro” de Pedro Tudela define — bem — a espacialidade da exposição.
A musicalidade e a temporalidade encontram eco também em algumas propostas de Sérgio Fernandes, inclusivamente pelo título Adagio, conferido a uma pintura e reportando-nos, como se sabe, a um andamento musical lento. A pintura de Fernandes é espacial, abstracta e de cromatismo denso, convocando algo precisamente de expressionista abstracto, sobretudo de Clyfford Still, quando materializa as manchas de cor pastosas, ou de Jackson Pollock, quando o gestualismo performativo se vislumbra na tela. As melhores pinturas são Adagio, O Sol herdado pela minha geração (2024) e Hearbeat (2024). Há ainda uma pintura que se reporta às referências modernistas, nomeadamente à pintora norte-americana Georgia O'Keeffe, propondo uma forma de pensar a pintura também de modo historicista.
A ideia da temporalidade na pintura de Fernandes afere-se ainda pela tinta que vai deixando o seu rasto, formando grossas pinceladas, rugas matéricas ou sobreposições pastosas bem conseguidas, por vezes de apreciável intensidade e expansão. Os tons quentes interceptam os tons frios e, neste encontro, a pintura ganha escala, movimento e inquietação. Nesta exposição as telas respiram convenientemente, porque se trata de pinturas que necessitam efectivamente dessa respiração, desse intervalo visual, temporal e musical.
Mas outros objectos escultóricos de Pedro Tudela chamam ainda a nossa atenção. Trata-se das peças da série Nat-sound (2024). São objectos inusitados, misteriosos e de grande elegância, trabalhados em metal e madeira. Água é uma bela escultura, situada algures entre um primitivismo e uma modernidade estilizada. Finalmente, também de Tudela, o vídeo em loop (Tialtngo, 2024) com um efeito estroboscópio que, uma vez mais, nos remete para o tempo e o espaço, confluindo para um lugar de fruição hipnótico e cadenciado. YEPSEN(s) é uma exposição que mostra o som e faz ouvir a pintura.
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